Quando há eventos extremos e vulnerabilidades locais, temos a receita dos desastres – que impactam enormemente a sociedade, sendo ameaças à saúde, ao bem-estar, à segurança e à vida das pessoas. Lidar com eles é uma tarefa complexa, envolve análise multidisciplinar profunda e soluções que só serão efetivas por meio de ações rápidas, conjuntas e estruturais.

A ciência do clima já alerta há muito tempo para o fato de que a emissão de gases de efeito estufa pelas atividades humanas vem desregulando o balanço de energia da Terra: com um efeito estufa potencializado devido às altas concentrações desses gases, o calor fica aprisionado, causando o aquecimento da atmosfera, oceano e superfície terrestre. Esse aquecimento antropogênico global leva a mudanças nos padrões planetários. Temos então as mudanças climáticas.

Uma das faces mais marcantes das mudanças climáticas é o aumento da frequência e intensidade de eventos extremos – que sempre existiram, mas que se tornam mais prováveis ​​e com maior potencial destrutivo em um mundo mais quente.

De forma sistêmica, já estamos monitorando maior quantidade e também a intensificação dos eventos, mas para além do aumento das temperaturas e das ondas de calor, o aquecimento do sistema também influencia extremos de chuva e secas: quanto mais quente a atmosfera se torna, maior a sua capacidade de reter umidade; logo, ela pode absorver ainda mais umidade de regiões secas – agravando esse problema –, ao mesmo tempo em que todo esse vapor d’água vira combustível para tempestades severas e equipamentos.

Um oceano mais quente também gera mais energia para eventos extremos, e mesmo características naturais e cíclicas, como o ENSO (El Niño, La Niña), têm seus efeitos potencializados pelo aquecimento antropogênico global.

É verdade que existe uma variabilidade natural, mas atualmente a influência humana sobre o clima já é dominante em relação a essa variabilidade. O que fazer então? Temos ferramentas para lidar com essa crise?

A meta mais ambiciosa do Acordo de Paris é limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação ao período pré-industrial, e já estamos muito perto desses limites: projetar-se que, no ritmo atual, ultrapassaremos este valor no início da década de 2030. Logo, vivemos uma década crítica e precisamos ter em mente que, mesmo que o cumprimento dessa meta seja muito difícil, não podemos desistir, pois cada décimo de grau evita importante (um mundo com 1,7°C de aquecimento global ainda é muito melhor que um mundo com 2°C, por exemplo), e a velocidade das ações conta muito para o resultado que teremos.

Por isso, a mitigação das mudanças climáticas é tão urgente e se refere justamente à rápida e drástica redução das emissões de gases de efeito estufa, a fim de estabilizar o aquecimento global e impedir também a escalada contínua de frequência e intensidade de eventos extremos.

Entretanto, é necessário agir também sobre o outro fator de segurança, pois a magnitude dos desastres não depende apenas da intensidade das especificações meteorológicas ou climáticas que os deflagram, mas muito também do grau de vulnerabilidade do sistema receptor, ou seja, do quanto o sistema é resiliente esse tipo de ameaça.

E aqui entra a adaptação, que se refere a planos e ações para diminuir nossas vulnerabilidades e nos preparar para que, quando da ocorrência das ocorrências, se possa evitar os desastres ou, ao menos, diminuir os danos à população e ao ecossistema. Essas medidas devem ser pensadas conforme as vulnerabilidades de cada lugar, logo as esferas municipais e têm papel estadual fundamental.

Deveria ser, antes de tudo, uma questão ética para o poder público trabalhar pela segurança e bem-estar da população, mas mesmo do ponto de vista econômico é investir racionalmente na prevenção, porque a remediação custa muito mais caro: segundo o Escritório das Nações Unidas para Redução de Risco de Desastres (UNDRR), cada dólar investido em prevenção e redução de risco, pode economizar 15 dólares em recuperação pós-desastre.

É evidente que a cultura de ações reativas precisa mudar para as ações preventivas.

Deve-se levar em conta também que as medidas adaptativas precisam ir além da simples manutenção dos mesmos moldes, criados para um clima que não existe mais. É necessário compensar, atualizar e melhorar estruturalmente tudo o que conhecemos, a fim de nos prepararmos não só para as mudanças climáticas que já ocorreram como para as que ainda ocorrerão.

A crise climática, cada vez mais, afetará a todos em algum grau, mas os impactos são desiguais e as principais vítimas são as populações mais vulneráveis ​​– as que menos são afetadas para a crise são justamente as que sofrem suas perdas consequências. Essas populações são as maiores impactadas pelos desastres, e o Brasil precisa lidar também com questões de desigualdade, distribuição de renda e acesso, que são essenciais quando se trata de adaptação às mudanças climáticas.

Quanto mais tempo passar sem que haja diminuição das emissões, mais extremos irão se tornar os eventos e maior será a nossa necessidade de adaptação.

Por isso, os tomadores de decisão precisam urgentemente ouvir os alertas que a ciência vem dando há décadas e permitir que ela guie políticas públicas.

Ouvir a ciência, obrigatoriamente, passa por parar a destruição e a flexibilização da legislação ambiental. Recuperar biomas é fundamental, pois tudo está conectado no sistema terrestre: a influência urbana nos processos atmosféricos e é essencial como proteção aos extremos.

A questão climática e ambiental necessita ser vista como prioridade não apenas quando os desastres acontecem, mas a todo o tempopois é uma questão transversal que perpassa todas as áreas de nossas vidas, podendo afetar não só a economia como a saúdea biodiversidade, a segurança alimentar e tantas outras.

A crise climática precisa ser tratada como o que é: o maior desafio da humanidade. Já perdemos muito tempo e nossa janela de oportunidade para um futuro habitável está se fechando, entretanto ainda é possível assegurá-lo se agirmos logo. Existe um amplo espectro de possibilidades e o que fazemos hoje vai definir onde nesse espectro chegaremos, o caminho que escolheremos.

Karina Bruno Lima é bacharel em Geografia, mestre em Geografia com ênfase em análise ambiental e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com pesquisa na área de Climatologia

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