Não fosse suficiente a enchente que assola o Rio Grande do Sul (RS), também surge outra enxurrada: oceanos de desinformações que visam desestabilizar forças políticas e institucionais, provocar caos desmesurado e aumentar a dor. Contudo, nada surge da noite para o dia. Há fatores historicamente construídos para que a desinformação trafegue em liberdade indevida.

Vamos lá, no caso de inundação no RS, partimos de uma agenda histórica de descoberta ambiental. Para o Brasil se tornar o “celeiro do mundo”, devastou biomas, ao custo de uma estrutura de vigilância e controle ambiental crescentemente desmantelada por atores sociais que compartilham que a ecologia é balela, e de uma economia que gera hábitos de consumo desenfreados, manipulação ambiental, enorme geração de lixo, assoreamento de rios, poluição e devastação de biomas.

E tem mais: em nosso país, há anos, inexistem solidez das normas de comunicação de risco que deveriam ser aplicadas do micro (bairro, município) ao macro (áreas metropolitanas, estado, regiões). Quais são as áreas de risco? Quais locais podem ser atingidos? Quando e por quais mecanismos serão alertados? Quais são as rotas de evacuação? Escolas, roupas, coletivos, Defesa Civil, quem atuará nos abrigos? Como proteger os mais vulneráveis? São perguntas que planos de comunicação de risco e de evacuação preventiva conseguem responder, desde que façamos as perguntas certas, na hora certa – antes que o risco (possibilidade) se materialize em dano (o risco já concretizado).

Esse processo é fortalecido diante da desregulamentação das redes sociais e resulta em um pacote letal. Acreditamos, como sociedade, que vai ficar tudo bem enquanto destruímos o planeta. Achamos fofos os documentários de crianças de outros países sendo preparados para possíveis terremotos, mas aqui no Brasil não precisamos disso… Não? E as crianças desaparecidas na atual inundação no RS? E os idosos, os hospitais, as creches, faculdades, empresas, comunidades inteiras submersas na água lamacenta?

Não somente a inundação, mas todo esse conjunto ceifa vidas. Em síntese, falta prevenção há décadas, e também nos dias anteriores às inundações. Você conseguiu fechar o comércio e as escolas quando é feriado, por que não conseguiu fazê-lo antes de uma inundação? Óbvio que conseguimos, desde que haja decisão política.

Desde que não deixemos multiplicar o número de desabrigados até que a única saída seja em orçamentos astronômicos emergenciais. Esse cenário histórico é perfeito para pavimentar a estrada da indevida liberdade de desinformar e proliferar o negacionismo climático.

A lógica das plataformas de mídia social segue e amplia o modelo de comunicação do grotesco de que nos falou Muniz Sodré. O grotesco, agora ampliado na internet, estimula os relatos mentirosos e sensacionalistas. Influenciadores digitais e as Big Techs nadam de braçada em plataformas de mídias sociais sem regulação.

Desinformamos em troca de alcance e engajamento, a atual moeda digital. Como consequência, levam veículos de imprensa – que de forma irresponsável publicam sem a devida verificação – e muitos políticos – que assumem mentiras em discursos e mensagens amplificadoras do círculo vicioso. É preciso prudência, em especial, na cobertura de catástrofes.

Antes de pegar uma rodovia, você não passa no posto de calibração, água e óleo para viajar com segurança? Pois então, antes de acelerar o fundo e repassar uma desinformação, verifique nas agências de seleção e sites jornalísticos como a Agência Lupa, a Aos Fatos e o Estadão Verifica.

A tragédia climática no RS ceifou vidas, gerou mais de 200 mil refugiados climáticos e identificados o dedo para a falta de planejamento no combate a tragédias climáticas previstas pela ciência. Enquanto as figuras públicas, em especial, deputados e senadores brasileiros, deputados estaduais/distritais, vereadores, prefeitos e governadores estão mais preocupados em criar narrativas para suas bases eleitorais nas redes sociais do que em gerenciar as crises, serão corresponsáveis ​​por essa e por outras tragédias que podem vir.

E se a pauta da biodiversidade, conservação e economia sustentável não se tornar prioridade, catástrofes se multiplicarão. Se a dor das vítimas das enchentes no RS não fizer nos três poderes (no nível Municipal, Estadual e Federal), a desesperança reinará em um país em cujos rostos não mais distinguiremos lama de lágrimas. Ainda podemos fazer algo. Façamos.

Dione Oliveira Moura é professora e pesquisadora, atualmente diretora da Faculdade

de Comunicação da UnB.

Marlise Viegas Brenol é professora de Comunicação Organizacional na Universidade Federal de Brasília.

Liziane Soares Guazina é professora de graduação e pós-graduação da

Faculdadede Comunicação da UnB. Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

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